Filosofia Espírita - Definida


Filosofia Espírita está estruturada em um sistema como qualquer outro sistema filosófico existente: 1- Cosmogonia: Pautada na causa primária, atemporal, influenciada pela não antropomorfia de Xenófanes de Cólofon, a imutabilidade do ser de Parmênides, a atemporalidade do motor-imóvel de Aristóteles e a não espacialidade da causa primeira de Aquino. 2- Ética: cristã-kantiana, sustentada pelos imperativos categóricos "Faça ao próximo aquilo que quereríeis que fizessem a vc mesmo", ou "Haja de forma com que tuas ações se fossem feitas por outrem, tu não as condenaria-as". 3- Moral: Derivada da ética axiomática supra, e sujeita a mudanças temporais, de acordo com o patamar intelecto-moral dos seres (dicotomia progresso intelectual x progresso moral). 4- Ontologia: nosce te ipsum et nosce realis. "Conhece-te a ti mesmo, e conheça a realidade que te cerca".

5- Estética: "Tudo o que é existente, possui a sua utilidade enquanto ser." 6- Metafísica: Valores axiológicos e pilares estruturais derivados da reencarnação socrático-platônica (Fédon), e da noção axio-valorativa agostiniana => "Mal como ausência do bem." "O mal não existe em um sistema totalitário, é apenas fruto da ignorância do homem." 7- Lógica: causal, não linear, erroneamente confundida com a ação e reação newtoniana => "Para toda ação existe uma reação na mesma intensidade e em sentido contrário." <= Não se aplica a axiologia Espírita. 8- Epistemologia: metodologia epistemológica própria, baseada no quesito de concordância na obtenção de informações, na lógica (aristotélica) e razão (cartesiana).

Quais filosofias influenciaram o (surgimento do) Espiritismo? Enquanto sistema moral e epistemológico, temos a priori Sócrates/Platão. Isso é claro, em diversas passagens na obra de Kardec, como por exemplo: "Sócrates e platão, precursores da idéia cristã e do Espiritismo" => http://espirito.org.br/portal/codificacao/es/es-00.html#es00a4 Ou então, "A moral que os Espíritos ensinam é a do Cristo, pela razão de que não há outra melhor. Mas, então, de que serve o ensino deles, se apenas repisam o que já sabemos? Outro tanto se poderia dizer da moral do Cristo, que já Sócrates e Platão ensinaram quinhentos anos antes e em termos quase idênticos." [ in A gênese - Capítulo I - Item 56 ] A epystheme, se verifica patentemente na forma em que o Livro dos Espíritos é elaborado, obedecendo a maiêutica socrática, com uma abordagem "positivista" (não confundir com o Positivismo de Auguste Comte). Esses são os influenciadores diretos. Temos tbm, a epistemologia central da Filosofia Espírita (doravante, FE), que é o CUEE*. Fora isso, temos a influência de vários pensadores, de forma oculta na FE, como por exemplo a constante mutação heraclitiana, o devir proposto por Heráclito ("Tudo flui."), onde encontra-se expresso no modus de evolução do ser proposto pela FE. A visão estática do ser de Parmênides, apenas se encontra alheia ao espaço-tempo, e é adotada pela FE apenas na questão da causa primária, adotada como Divindade Una pela FE. Sobre evolução do ser sustentada pelo devir de Heráclito, discorrerei melhor in "dicotomia evolutiva - progresso intelectual x progresso moral".

Cosmogonia Espírita

Adiante, discorrerei sobre a cosmogonia espírita, e a aproximação dessa com Xenófanes de Cólofon, Parmênides, Aristóteles e Tomás de Aquino. Xenófanes de Cólofon, foi um dos precursores do da Doutrina Deísta, sendo esse (Xenófanes) - e por conseqüência o Deísmo em si - um grande crítico do Teísmo, por criticar incisivamente as atribuições míticas e antropomórficas que as pessoas de seu tempo atribuíam aos Deuses, e a Deus em si. Seu objetivo, era "dar ao divino uma pura e elevada idéia: o verdadeiro deus é único, com poder absoluto, clarividência perfeita, justiça infalível, majestade imóvel; que em pouco se assemelha aos deuses homéricos sempre a perambular pelo mundo sob o império das paixões". Fundador da escola de Eléia, se diferia da Filosofia de Anaximandro e seu a-peiron, pois busca na natureza intrínseca das coisas a causa para todas as transformações. Foi um dos precursores da ONIPRESENÇA DIVINA, ao afirmar: “Tudo é o Um e o Um é Deus”. (Xenófanes de Cólofon) Se trata essa uma idéia primária, carente de desenvolvimento, pois do contrário desemboca no Panteísmo, ao se confundir efeito (natureza espaço-temporal) com causa (Deus, não-espacial e atemporal). Vemos essa carência de desenvolvimento, na metafísica de Aristóteles: “Pois Parmênides parece referir-se ao Um segundo o conceito, e Melisso ao Um segundo a matéria. Por isso aquele diz que o Um é limitado, e este, que é ilimitado. Xenófanes, o primeiro a postular a unidade, nada esclareceu, nem parece que vislumbrou nenhuma dessas duas naturezas, mas, dirigindo o olhar a todo o céu, diz que o Um é o Deus.” (Aristóteles, in "Metafísica") A principal influência do pensamento de Xenófanes na FE, não vem dessa imprecisão quanto ao "Um", mas sim da crítica que este faz a antropomorfia, como dito antes.

Critica Xenófanes: “Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões E pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens, Os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois, Desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam Tais quais eles próprios têm.” (Xenófanes) Ou: "Se os bois e os cavalos tivessem mãos e pudessem pintar e produzir obras de arte similares às do homem, os cavalos pintariam os deuses sob forma de cavalos e os bois pintariam os deuses sob forma de bois". (Id.) Eis a aproximação do pensamento de Xenófanes com a FE: ambos, buscam não possuir nenhum resquício de antropomorfia em suas cosmogonias. 'Paternidade', 'Deus-Pai', passa longe de uma noção cosmogônica-espírita acerca da Divindade. Tanto quanto as divindades antropomórficas gregas encabeçadas por Zeus não passavam perto da noção cosmogônica-xenofântica acerca do Um. A aproximação com a cosmogonia de Parmênides (onde há boatos desse ter sido discípulo de Xenófanes), pode ser verificada nos seguintes conceitos: - Unidade e imobilidade do Ser; - O mundo sensível é uma ilusão, apenas a Unidade é a realidade plena; - O Ser é Uno, Eterno, Não-Gerado e Imutável. Segundo Teofrasto, podemos notar uma aproximação com Xenófanes, na seguinte citação: “O que está fora do Ser não é Ser; o Não-Ser é nada; o Ser, portanto, é Um.” Temos aí, o ser-absoluto de Parmênides, e sua imutabilidade, sendo somente esse "Um absoluto" existente. O resto, é ilusão. Verificamos aqui, mais uma inclinação ao panteísmo, ao atribuir a Unidade de apenas uma individualidade, a realidade. Eis aqui o ponto onde a Filosofia de Xenófanes e Parmênides destoam da FE: "O homem, não podendo se fazer Deus, quer pelo menos ser uma parte d’Ele." (O livro dos Espíritos)

Partindo da critica de Xenófanes a antropomorfia – negando seu panteísmo - , e da adoção da imutabilidade e do ser não gerado de Parmênides – negando tbm seu panteísmo -, adentramos na cosmogonia aristotélica e o seu conceito de motor imóvel. Aristóteles baseado na experiência heraclitiana do devir, do vir-a-ser, da passagem da potência ao ato, argumenta que a ocorrência desse devir requer um não-vir-a-ser, o que ele denominou de motor imóvel: "Com efeito, mesmo admitindo que o mundo seja eterno, isto é, que não tem princípio e fim no tempo, enquanto é vir-a-ser, passagem da potência ao ato, fica eternamente inexplicável, contraditório, sem um primeiro motor imóvel, origem extra-temporal, causa absoluta, razão metafísica de todo devir. Deus, o real puro, é aquilo que move sem ser movido; a matéria, o possível puro, é aquilo que é movido, sem se mover a si mesmo." [ in "O mundo dos Filósofos", Aristóteles ] Eis aqui a aproximação do motor-imóvel de Aristóteles, com a FE: Uma causa extra-temporal. Mas ainda assim, não há uma concordância plena* com aquilo que a FE defende. Pois apesar da noção aristotélica ser extra-temporal, não ser panteísta dizendo que tudo é o um e o um é Deus, ainda assim possui uma noção espacial. Uma submissão da Divindade ao espaço, por ser essa em si mesma um motor. * Epysthème espírita.

Aclarado portanto os conceitos anteriores de Xenófanes, Parmênides e Aristóteles, adentramos a cosmogonia de Tomás de Aquino. O Filósofo, propõem em sua cosmogonia o que é conhecido como as cinco vias Tomistas: 1a. via - Primeiro Motor Imóvel Partindo da já citada cosmogonia aristotélica onde tudo o que se move é movido por alguém, afirma ser impossível uma cadeia infinita de motores provocando o movimento dos movidos, pois do contrário nunca se chegaria ao movimento presente, logo postula que há que ter um primeiro motor que deu início ao movimento existente e que por ninguém foi movido. Esse é um dos pontos dissonantes da cosmogonia tomista com a FE. Pois a FE defende o conceito de causa primária, que por sua vez é atemporal, não submissa ao espaço (Aristóteles), e não submissa ao tempo (Aquino). Da cosmogonia espírita: "Deus, inteligência suprema - causa primária de todas as coisas." Interessante verificar a tese "tomista" (causa primeira) - diferente da causa primária espírita - e a aproximação dessa com a Teoria do Big Bang, onde se defende um "início de tudo". Ela destoa da tese espírita, que defende o conceito da "existência eterna desde sempre", se aproximando com muita veemência da Teoria das Branas de Paul Towsend e da Teoria "M" [ veja documentário da BBC Inglesa ==> http://www.youtube.com/watch?v=o9LV9vaGxJQ ].

Continuando com as vias tomistas

2a. via - Causa Primeira Aquino afirma que essa decorre da relação de "causa-e-efeito" que se observa nas coisas criadas. Afirma ser necessário que haja uma causa primeira que por ninguém tenha sido causada, pois a todo efeito é atribuído uma causa, do contrário não haveria nenhum efeito pois cada causa pediria uma outra numa seqüência infinita. Eis portanto, os dois erros de Aquino e que são dissonantes com a FE: - Afirma ser impossível uma cadeia infinita de motores provocando o movimento dos movidos, pois do contrário nunca se chegaria ao movimento presente; - Afirma ser necessário que haja uma causa primeira, do contrário não haveria nenhum efeito pois cada causa pediria uma outra numa seqüência infinita. O primeiro erro, é facilmente demonstrado pelo Cálculo Integral (vou perpassar conceitos simplórios, apenas para delinear a idéia): 1) - T + T = ? 2) - T + T + T = ? 3) - oo + oo = ? 4) - oo + oo + oo = ? Onde T é igual ao tempo. Na situação "1", temos -T (tempo passado), e +T (tempo ocorrido para se chegar no presente, afinal, estamos aqui). A somatória dos dois, é igual a "0", que representa o tempo no presente. Na situação "2", além de -T (passado) e + T (ocorrido para o presente), temos ainda o tempo enquanto potência, que representa o devir, sendo esse proporcionado pela Divindade (potência pura na FE, em detrimento do ato puro, em Aquino). Nas situações "3" e "4", partindo de um referencial presente (nós), temos a representação do tempo infinito, onde "menos infinito" + "infinito" é igual a zero (presente), mais o tempo enquanto potência infinita (existir desde sempre, na FE e na Teoria "M"). Como vimos, matematicamente não é impossível, conforme Aquino afirma, sendo assim dispensável o postulado "causa primeira".

Da 2.º via tomista, a FE só adota a relação de causa e efeito (uma enquanto potência - causa primária - e as outras decorrentes dessa enquanto ato - efeitos). Assim, adentramos a 3a. via: Ser Necessário Aquino afirma a existência de seres que podem ser ou não ser (contingentes), mas nem todos os seres podem ser desnecessários se não o mundo não existiria, logo é preciso que haja um ser que fundamente a existência dos seres contingentes e que não tenha a sua existência fundada em nenhum outro ser. Aqui temos uma epysthème concordante com Aristóteles, e com a própria FE. E pq Deus é contingente, enquanto potência infinita, imutável e não antropomórfica? Pq sem esse, não haveria um constante devir. Não haveria uma potência que movesse as coisas sem ser em si mesma movida (por ser potência), não havendo o passado, o agora e o devir. Nesse interim, a FE ainda reforça a tese de uma causa primária inteligente, atemporal e não-espacial como dito antes (não confundir com "design inteligente" que seria o criacionismo moderno). E pq uma inteligência não-antropomórfica? Pq por afirmar a impossibilidade de eventos sem causa, endossa a necessidade de que para a existência de um efeito inteligente espaço-temporal e sujeito ao devir (nós), há a necessidade de uma causa tbm inteligente não sujeita ao devir (Deus).

Muitos contestam esse ponto, afirmando a existência do acaso na natureza "em si". Isso é uma inverdade, uma especulação refutada pela empíria. O que nós verificamos por "acaso", é somente uma confissão cabal da nossa impossibilidade de verificar todas as causas que desendeam um evento. O que não quer dizer que eles não existam. Diversas verificações empíricas demonstram isso, sendo uma dessas a interpretação holográfica da realidade A grosso modo, um holograma possui a]uma representação geométrica multidimensional, tal qual a realidade. E possui uma propriedade muito peculiar: Se picotarmos um filme holográfico em pequenas partes, ele ainda assim manterá a versão intacta do filme original. Ou seja, cada pequena parte do holograma, contém todas as partes do holograma, o que nos demonstra uma integração completa de todo o espaço-tempo, onde uma pequena parte influencia no todo, e o todo influencia em cada ínfima parte de si. Assim, fica empiricamente demonstrado a impossibilidade da não existência de nenhuma causa para qualquer evento espaço-temporal. Isso somente ocorreria, se esse evento estivesse isolado do todo (possibilidade de falseamento popperiana). Alguns incautos, enunciam o "princípio da incerteza de heisenberg", conceito da física qüântica, para afirmar o "acaso absoluto". Porém, esquecem de um conceito muito importante: Essa incerteza somente ocorre por uma interferência do observador, que ao atribuir um específico comprimento de onda para observar a posição de uma partícula, acaba por indeterminar a sua velocidade. Há portanto, uma causa específica que gera a incerteza: A influenciação do observador externo.

Resumindo a cosmogonia espírita

Essa se inicia com a negação da antropomorfia por Xenófanes repelindo a tendência panteísta de seu pensamento, caminha para o ser imutável e não-gerado de Parmênides repelindo tbm sua tendência panteísta, adota a causa extra-temporal de Aristóteles negando a sua espacialidade, caminha para a relação de causa e efeito de Aquino negando a sua temporalidade e afirma: "Deus, inteligência suprema - causa primária de todas as coisas" Desse axioma demonstrado, inicia-se a maiêutica entre Kardec e os colaboradores espíritas, tentando-se obter uma concordância (epysthème espírita) em relação a Divindade. Porém, devido a seu tempo, incorrem no erro histórico e na influenciação da conjuntura histórica: deixam-se levar pelo criacionismo. Embora Kardec tenha se cercado de cuidados quanto a essas possíveis influenciações, ele não possuía dados suficientes na época para interpretar o axioma obtido com maior solidez. Quais dados são esses? O conhecimento de que o espaço tempo possui uma curvatura e tudo aquilo que está contido em si possui limitações de tráfego (relatividade de Einstein, velocidade da luz no vácuo e deformação do espaço-tempo). E por esse desconhecimento, ele e alguns adotam a tese por uma concordância parcial no criacionismo. Questiona-se: Oras, se o espaço-tempo possui uma curvatura, e limitações de ação naquilo que está submetido a esse, qual o sentido da criação? Qual o sentido do ato de criar? Se há limitações a qualquer ato, uma causa primária e suprema não pode se servir a atos, do contrário tbm se limita, e deixa de ser suprema.

Após a exposição acima, temos a demonstração cabal de que a FE não é dogmática, anti-filosófica e muito menos afirma possuir uma "cosmogonia completa", pois sua epistemologia demanda concordâncias axiomáticas (razão cartesiana) para assumir para si algo como parte constante de seu corpo filosófico doutrinário. Concordâncias parciais como essa demonstrada acima, auto-refutáveis, são descartadas ao longo do tempo pela ação do conhecimento proposto pelo devir. "O dia em que a razão ou a ciência desdizerem o Espiritismo, fiquem com elas." (Allan Kardec) E eu reafirmo: O conhecimento angariado pelo devir, é naturalmente incorporado a FE, pois por ser essa uma Doutrina de homens e mulheres, está sujeita a transformações constantes ao longo do tempo. Desse modo, adentramos a esfera do ser heraclitiano, ou seja, na esfera espaço-temporal.

O ser-no-tempo

O ser-no-tempo espírita, é evolucionista. Não involui, ou seja, não se piora ao longo da linha do tempo. Mas isso, não é um "não se piorar" imbuído de valor axiológico a priori. Imbuído de um "bom" e "ruim", de "bem" e "mal". Significa apenas a transmutação do ser proporcionada pelo devir, transmutação essa que é direcionada para uma adaptação perfeita do ser para com o meio. Ou seja: O ser sempre terá disponível tudo aquilo que necessita para a sua adaptação e transformação constante. Nesse devir, se forma uma cadeia evolutiva, que pode ser interpretada na seguinte parábola: "Do átomo ao arcanjo, tudo se encadeia na natureza." Assim, do mais ínfimo ente existente, aos entes mais complexos e elaborados, sejam esses de natureza própria inteligente ou não, todos se transformam: "Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma." (Antoine Laurent Lavoisier, químico francês) De um ínfimo ente-no-tempo, o ser se transforma e através da influência proto-física e indireta das inteligências existentes no todo (potência e ato - causa primária e ser-no-tempo - segundo o já exposto da parte influenciando no todo - holograma) o ínfimo ente-no-tempo passa a desenvolver uma inteligência rudimentar, primária, que pela ação do devir acaba por adquirir a consciência de si mesmo: Eis, o espírito.

O progresso do ser consciente de si

Dicotomia evolutiva - progresso intelectual x progresso moral A FE explica a evolução do ser consciente de si em dois âmbitos: 1- Progresso intelectual; 2- Progresso moral. O primeiro sempre precede o segundo. Pode-se sim optar por um progresso intelectual, e prescindir de uma elevação moral (aproximação estóica) pautada em uma ética axiomática, como propõe a FE (aproximação cristã-kantiana): "Faça ao próximo aquilo que quereríeis que fizessem a vc mesmo", ou "Haja de forma com que tuas ações se fossem feitas por outrem, tu não as condenaria-as". Embora as duas (intelectual e moral) possam ocorrer de forma unilateral, uma, é fator limitante a outra. O progresso "intelectual", possui "ápices" que não podem ser ultrapassados em certos pontos se não houver uma compreensão moral por parte do ser. Por exemplo: Eu posso passar a vida toda angariando inteligência, sendo essa totalmente alheia a quaisquer tipo de conduta ética que possa existir. Mas assim, só estarei utilizando o meu intelecto em apenas um foco específico, sendo que há um leque maior de possibilidades de avanço intelectual que pode ser trabalhado em conjunto com uma conduta ética. Conseguem notar? Se eu ajo alheio a esses axiomas, o espectro se reduz, e o progresso não ocorre de forma plurilateral. O contrário (progresso moral ser limitado pelo não-progresso intelectual), tbm ocorre. Chega pontos em que uma compreensão mais "intelectiva" da realidade, se faz mister para poder se angariar uma maior elevação do ser (virtude - moral – atharaxia).

Ontologia espírita

Partindo dessa dicotomia progresso intelectual x progresso moral, de certa forma já adentramos na ontologia espírita, que trata do "ser enquanto ser e a relação desse com a realidade em que esse compactua". Iniciamos sutilmente a ontologia espírita do ser-alheio-ao-espaço-e-ao-tempo com o ser parmenídico (causa primária), passamos desse ao ser-no-tempo heraclitiano sujeito ao devir, e desse chegamos ao ser-no-tempo-consciente-de-si (espírito). Temos assim, o postulado ontológico do ser-no-tempo-consciente-de-si espírita: "Nosce te ipsum et nosce realis." - "Conhece-te a ti mesmo, e conheça a realidade que o cerca." Tal ontologia, é basicamente o sustentáculo de todas as ontologias de praticamente todos os filósofos que pensaram o ser. De Heráclito [ "O mesmo homem não entra no mesmo rio duas vezes" ] a Parmênides [ "O sensório é ilusão, nada muda" ], a Sócrates [ "Só sei que nada sei" ] e Platão [ corpo e alma, reencarnação - evitada pelo filósofo que para ele angaria a "virtude" de não reencarnar ], a Aristóteles [ "O homem é um animal político" ] a muitos outros pensadores, como Agostinho de Hipona [ "Não vás para fora; volta a ti; no interior do homem habita a revelação do ser: a verdade." ], Renè Descartes [ "Cogito, ergo sum" ], Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger, Sartre e tantos outros. Voltando a esfera espírita, essa pensa o ser inteligente conforme "classes", conforme o seu patamar evolutivo, conforme o seu patamar intelecto-moral. No topo da escala evolutiva do ser-no-tempo espírita, temos o espírito puro, que através da sua elevação moral conquistou a sublimação sobre a matéria.

Mas não podemos concluir que no topo de tal escala, se angaria todo o saber, toda a verdade. Pois esse, em si mesmo, é infinito, e portanto demandaria um tempo infinito para o seu angariar, o que seria um contrasenso. Não há portanto no ser-no-tempo-espírita uma (sic) "limitação em sua jornada rumo a compreensão das verdades universais". Temos então, do ínfimo ente "que se transmuta pelo devir, transmutação essa que é direcionada para uma adaptação perfeita do ser para com o meio, proporcionando um angariar da consciência de si que deriva a eterna jornada rumo a compreensão da realidade". Nosce te ipsum, et nosce realis - já o dissemos. E quais os meios, para se obter esse pàthos de compreensão? No início dessa exposição, já foi dito - por Kardec: "Outro tanto se poderia dizer da moral do Cristo que já Sócrates e Platão ensinaram quinhentos anos antes e em termos quase idênticos." E tbm por muitos outros. Por exemplo: Budismo - "Não firas os outros de um modo que não gostarias de ser ferido" Udanda-Varqa 5:18 Zoroasterismo - "Aquela natureza só é boa quando não faz ao outro aquilo que não é bom para ela propria" Dadistan-i Dinik 94:5 Judaísmo - "O que te é odioso, não faças ao teu semelhante. Esta é toda a Lei, o resto é comentário." Talmude, Shabbat 31a Hinduísmo - "Esta é a soma de toda a verdadeira virtude: trate os outros tal como gostarias que eles te tratassem. Não faças ao teu próximo o que não gostarias que ele depois fizesse a ti." Mahabharata Islamismo - "Nenhum de vós é um crente até que deseje a seu irmão aquilo que deseja para si mesmo." Sunnah

Taoísmo - O homem superior "deve apiedar-se das tendências malignas dos outros; olhar os ganhos deles como se fossem seus próprios, e suas perdas do mesmo modo." Thai-Shang Confucionismo - "Eis por certo a máxima da bondade: Não faças aos outros o que não queres que façam a ti" Analectos XV,23 Fé Bahá'í - "Não desejar para os outros o que não deseja para si próprio, nem prometer aquilo que não pode cumprir." Gleenings Ética Romana "Suae quisque fortunae faber est." – "Todo homem é o artesão de sua própria fortuna." (Appius Claudius Caecus) "Ad perpetuam rei memoriam: Amor est vitae essentia." - "Para eterna lembrança dos fatos: O amor é a essência da vida." (ditado romano, autor desconhecido) "Amicus Plato, sed magis amica veritas." - "Platão é meu amigo, mas a verdade é uma amiga maior." (ditado romano, autor desconhecido) Assim, através de exemplos axiomáticos (epysthème espírita), a FE adota como exposição didática tal moral univeral, se utilizando do exemplo de Yeschua Ben Nohri (Jesus Cristo) - e outros - como forma de expor essa didática do pàthos de progresso do ser inteligente, para a posteriori formular o seu próprio axioma ideológico.

Vamos ao pàthos exemplificado por Yeschua, no "amar ao próximo como a si mesmo", através da abordagem aristotélica do èlenchos (negação): Nietzsche, muito felizmente critica tal ideal do amor ao próximo em sua obra "Genealogia da moral - uma polêmica", mais precisamente na terceira dissertação. O ser, ao buscar um sentido para a sua vida, para o seu ser-assim, busca as respostas para a ocorrência dos seus sofrimentos, de suas dores, da sua depressão, enfim, de seus males. Ele precisa de um sentido para tudo isso. A filosofia cristã, justamente fornece esse sentido - e segundo Nietzsche - matando a alma do ser, deteriorando sua psyché, o seu essencial-homem, ao atribuir a esse o sentimento de culpa. A partir do momento em que o ser reconhece em si mesmo a sua culpa (?) por seus males (questiona-se: que culpa tem esse da sua ignorância? Existe uma parcela, mas qual será essa de fato?), ele passa a buscar um sentido, uma forma de reformar a sua consciência, compensando os seus erros através da forma de retribuição, para se livrar do sentimento de culpa, amortecendo-o, narcotizando-o, através da prática da boa ação: "A felicidade da 'pequena superioridade', que acompanha todo ato de beneficiar, servir, ajudar, distinguir, é o mais abundante meio de consolo de que costumam servir-se os fisiologicamente obstruídos, supondo-se que estejam bem aconselhados: de outro modo, ferem uns aos outros, naturalmente em obediência ao mesmo instinto básico." [ in "Genealogia da moral - uma polêmica" - Terceira dissertação - NIETZSCHE, Friedrich ]

Com muita propriedade, Nietzsche discorre sobre o assunto: ao trazer a tona a "felicidade da pequena superioridade", gerada pela impulsão do ideal ascético de causar alegria pela alegria, de causar a bondade pela bondade, ele demonstra o automatismo de conduta da moralidade cristã, que impõe subliminarmente e não intencionalmente ao ser como postura correta o automatismo, não incitando o mesmo ao livre pensar, e o mais essencial: o questionamento, e o conhecimento de si mesmo. Notamos isso claramente em mais uma aporia do filósofo alemão, que diz: "Vós ides ao próximo fugindo de vós mesmos e quereríeis fazer disso uma virtude; mas eu leio através do vosso altruísmo... Não sabeis suportar-vos a vós mesmos e não vos amais o bastante; e eis que quereis seduzir o vosso próximo induzindo-o ao amor e embelezar-vos com o seu amor." [ in "Assim falou Zaratustra" - NIETZSCHE, Friedrich ] A caridade, antes de mais nada, deve começar no ser, e não no além-ser. Não deve servir de hipnótico, de narcotizante, afastando o ser de si mesmo. A introspecção, que a filosofia de Yeschua não fornece - é relegada ao léu, como se a única forma de "salvação" (salvação?) fosse a ajuda ao próximo, antes de começar por si mesmo. Sim claro, "Amar ao próximo como a si mesmo...". Mas como amar a si, se intrínseco ao conceito cristão há a culpa? Há a figura do pecador? Existe uma contradição existencial aí, que precisa se resolvida, e ela começa no próprio cristo: ele nega a vida, ele nega a si mesmo, ao não lutar contra o seu calvário – "meu reino não é deste mundo". Como resolver tal paradoxo? Como amar a si mesmo, se o próprio estandarte de tal bandeira, nega tal ideal para dar o exemplo na (sic) "salvação do próximo" (interpretação teleológica)?

O ser que nega a si mesmo - mesmo que em função do próximo - caminha para a sua "utópica" autodestruição. E assim, sofre. De nada adianta ao ser praticar a (sic) "virtude", a "caridade", o "ascetismo" e o "amar ao próximo" se não começarmos por nós mesmos. E isso implica em dizer, que esse "amar a si", começa pelo nosce te ipsum - conhece-te a ti mesmo, deriva ao meliora te ipsum - melhora-te a ti mesmo, seguindo para o torna te puru, através do conhecimento de si, e da realidade que nos cerca, praticando só aí a virtude do amor incondicional com a compreensão angariada. "Amar ao próximo, como a si mesmo." (Yeschua Ben Nohri) A máxima de Yeschua supra-citada, é algo equânime, bilateral e deve funcionar em um mecanismo igualitário de troca. Deve estar eqüalizado na mesma proporção da oferta e do recebimento, do contrário há descompensação e por conseguinte prejuízo para ambas as partes (uma em excesso, outra falta e/ou perda de tempo - que poderia ser utilizada para uma melhora mais contundente de si, e por conseguinte do próximo de forma indireta ou até mesmo direta). A descompensação quando ocorre no automatismo irrefletido - e o que é extremamente corriqueiro, quando analisamos as pessoas na prática - acaba por gerar sérios prejuízos na sociedade, sendo esses mascarados pelo pseudo-ascetismo da caridade. Se mascara a "perda dos ganhos não adquiridos" que poderiam ser efetivados, se esses cegos autômatos não agissem de forma irrefletida. Uma ação precisa, vale por um bilhão de ações imprecisas. Um agindo pragmaticamente, vale por um bilhão agindo superficialmente. Muito a se pensar sobre a equanimidade da máxima de Yeschua e a eqüidade justa dos direitos de cada ser.

Dos direitos do ser, a serem proporcionados pela coletividade Através do devir, os seres conscientes de si em uma patamar intelecto-moral acima da média de seu meio, devem se propor a garantir os direitos básicos de qualquer cidadão do mundo, que se propusessem além disso a ensinar, a esclarecer, a propagar o saber e a moral, do contrário temos um progresso não-pragmático. Do contrário, teríamos os "bonzinhos cristãos que praticam a caridade pelo prazer do vício - ops - do 'amar ao próximo'" e os "irmãozinhos em cristo coitadinhos que merecem todo o carinho e o apoio dos bonzinhos". A verdade, é que todas as pessoas possuem direitos mínimos de dignidade, e possuem o direito irrestrito a cidadania. Ocorre que, muitos dos “caridosos cristãos” nem sabem o que é cidadania de fato. Se exercessem as suas, exigindo os seus direitos, cobrando os governantes, sendo responsáveis em seus atos políticos e como cidadão, creio que teríamos respostas muito mais convincentes do que distribuir sopa por aí. O estado e a sociedade têm o dever de promover a todos os direitos básicos para esses desenvolverem seus potenciais plenitude, e em contraproposta esses fornecendo a sociedade e ao estado os seus préstimos produtivos, de forma direta ou indireta. Senão, todo e qualquer assistencialismo se torna um roubo a natureza ôntica e ontológica do ser. Um roubo de seus potenciais e de sua capacidade produtiva, se tornando um roubo a própria coletividade em si. O mesmo se limita enquanto pessoa, e fica sempre na mesma faixa do “coitadinho em cristo” que merece toda a nossa “compaixão”, sem nem sequer saber que existe um universo aí afora e ele possui o direito de ter acesso a esse, e a acrescentar. Assistencialismo somente resolve? Ou seria esse um sentido estrito, e caridade (leia-se progresso pragmático consciente) seria algo muito mais amplo que isso, podendo ser aplicada em todas as esferas da sociedade?

Verificada a exposição acima, temos a demonstração prática do axioma ideológico espírita: "Amai-vos e instrui-vos.” Ou em outras palavras, de minha autoria: "A liberdade angariada pelo conhecimento do ser e da realidade que o cerca, é a única forma verdadeiramente livre de ser. Afinal, por conhecer que podemos optar e por optar que podemos livremente viver. O curioso, é que chega determinado ponto na vida do ser, em que ele têm que optar por propagar o conhecimento angariado, pois proporcionando mais liberdade aos outros, angaria para si mesmo. Eis a nobreza da liberdade do conhecer: somente a fraternidade entre os homens, os libertará de sua ignorância. Conhecer, para se libertar. Propagar o conhecer, para se libertar mais ainda...” Desse pàthos ideológico do conhecer e amar, podemos caminhar para a Estética Espírita...

Estética

Onde está o belo, na FE? Kardec influenciado pela conjuntura histórica e pela ciência positivista, busca um caminho na "teoria da beleza", apoiado pela tese da Fisiognomia, de Gauss. Tenta obter uma concordância, afirmando o "angariar da beleza pelo devir e pelo melhoramento do ser", onde essa reflete em seus corpos, nas suas formas "físicas" de manifestação na matéria. Erra, e tal tese é derrogada pela própria ciência no devir. Kardec não identifica que a beleza não está no reconhecimento externo das formas "em si", mas sim na própria integração plena dessas com o meio, não podendo assim separar essas do seu papel sine quae nom no universo. Temos portanto - através do pseudo-conhecimento angariado - e pelo conhecimento angariado no devir (holograma - integração plena do ser com o meio), um axioma estético: "Tudo o que é existente, possui a sua utilidade enquanto ser. E nessa utilidade imprescindível, remanesce a estética máxima do existente: Tudo é belíssimo - do ínfimo ente, ao espírito puro - e por conseguinte, a causa que proporciona a existência de todas as coisas." (Raphael Bortoli de Souza)

Metafísica e lógica – mal como ausência do bem

Não há coisas eminentemente más. Pois tudo que acontece e que ocorre de uma forma que não outra, ocorre por uma necessidade das leis de atração e repulsão. Por um reflexo, das necessidades intelecto-morais de cada ser. Tudo que é ocorrido é necessário, pois senão as coisas seriam d'uma forma, que não outra. "O escândalo é necessário, mas ai de quem proporcionar esse". (Yeschua Ben Nohri) Ações (sic) “eminentemente más” ocorrem apenas pelo fruto da ignorância dos seres, ignorância essa de que uma ação (sic) “eminentemente má” irá gerar dor e sofrimento, para esse mesmo ser que pratica a ação, mais dia menos dia, frente a eternidade. Nada ocorre por acaso. O determinismo é afirmado sim, e agora entrando na esfera da LÓGICA ESPÍRITA, não de uma forma linear, rasa, ingênua e pueril, pautado naqueles que buscam consolo “na justiça reta de (sic) Deus”. A lógica espírita’ está afirmada no caos (“No caos subjaz a ordem”), no indeterminismo pleno na esfera do observador, mas determinado precisamente na esfera “do todo”. Corriqueiramente e nauseamente se lê, que fulano tal é anão, pq morreu de uma queda abrupta em vidas passadas. Sim, há muitos nonsenses desse gênero que partem da esfera do senso comum espiritualista. Isso é bobagem. Devemos preservar a multiplicidade de causas, que infinitas são em qualquer evento, obviamente hierarquizadas por causas diretas e depois indiretas. Há que se mensurar isso, delegando os “diretamente proporcionais” devidos. Pingos nos i´s.

Metafísica - reencarnação

O conceito de reencarnação no Espiritismo, parte da aceitação da tese “Platônica”, onde os seres encarnam até atingirem um certo grau de elevação moral (para Platão, seria o ter atingido o título e ser de fato um “Filósofo”, “amante do saber e do conhecimento”. Para a Doutrina Espírita, isso pode ser avaliado quanto o Espírito atinge o grau de “ser puro e com isso não precisar mais encarnar”. A metempsicose (reencarnação em animais e seres abaixo da escala hominal), não é aceita pela Doutrina Espírita. O ser não regride em escalas intelecto-morais. Na atualidade, temos algumas evidências que sustentam a tese. O pesquisador Dr. Ian Stevenson, do setor de análise comportamental da Universidade da Virginia – USA, recolheu farto material sobre assunto. Crianças novas que rejeitavam suas famílias se dizendo pertencentes a outras, com extremo grau de detalhamento sobre tais “antigas família”, informações essas verificadas “in loco”.

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